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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Abstinência do amor

Eu tinha chegado às seis da tarde no terminal do metrô, mas meu corpo ainda estava lá na casa que morávamos, recolhendo os restos do que sobraram dos nossos anos juntos. Oito anos cansativos, tentando remar contra a maré e sem propósito nenhum, mas juntos. Tudo me lembrava desses oito anos, mas o que me encantava era olhar o pôr do sol quando saí da estação e lembrar que no mês anterior vimos juntos o sol sair no fim da tarde, depois de um dia longo de chuva. Sentamos na varanda para contemplar e o seu sorriso me transmitia a serenidade de que nada mudaria. O brilho do sol no seu rosto me mostrava que a paz tinha se instalado na nossa vida e jamais sairia. Aquela foi a última vez que me enganei pelo seu sorriso disfarçado, pelo seu olhar distante. Enquanto preparava o jantar, jamais saberia que naquela noite, há um mês atrás, seria a última que nos abraçaríamos pra dormir. Se soubesse, teria te dado mais carinho, teria te dito mais uma vez que sempre estaria ali por você. Jamais pensaria que você iria embora naquela noite, mas quando acordei na manhã seguinte você não estava mais lá. Te procurei por toda a casa, subi as escadas correndo de pés descalços achando que te encontraria na sala de música, ou na sacada, lendo nosso livro preferido. Pude ouvir sua voz me dizendo: "bom dia, meu amor", mas tudo que ouvi foi nosso gato, Misfit, arranhando a porta para sair. Desci até a cozinha para encontrar um bilhete seu dizendo que saiu comprar o café da manhã, mas a mesa estava vazia. O seu carro estava na garagem, ao lado do meu. Na sala, a televisão estava desligada, apesar de você sempre deixar ligada quando acordava. Sentei na mesa de jantar na sala ao lado e fiquei pensando no que teria acontecido. Fiquei imóvel, olhando o quadro do nosso casamento por horas, acabei atrasando o almoço, pensando que você poderia estar fazendo alguma surpresa e me levaria para almoçar em um lugar especial, como fez na semana passada. Tive que ter coragem para olhar dentro do closet e ver que suas roupas tinham sido tiradas de lá. Fiquei imóvel mais uma vez. Senti lágrimas correndo no meu rosto e pensei que aquilo era um sonho terrível e queria acordar. Peguei meu celular e tentei ligar. Ouvi ele tocando na sala e não tinha percebido que ele estava lá. A tarde estava indo embora e nada de te ver, nem ter notícias suas. Aquela foi a pior noite que tive em anos, senti um frio absurdo por não ter seu abraço. No dia seguinte não consegui abrir as janelas, apesar do sol tintilar nas frestas, depois de dias intermináveis de chuva. Não tive coragem se quer de trocar de roupa, peguei Misfit no colo, fui até a cozinha e preparei um café tão amargo quanto a noite anterior. Subi as escadas e num súbito senti uma dor forte no peito e meus olhos se enxarcaram de lágrimas. Sentei ali com Misfit ronronando e fiquei por um longo tempo chorando e pensando em tudo que estava acontecendo. Passei o dia sem se quer me atrever a assistir os episódios novos do nosso seriado preferido, esperava você pra assistirmos juntos. Esperei em vão. Mal olhei pra fora naquele dia e assim foram os próximos dias. A dor continuava e aumentava cada dia mais. Um dia em que eu já nem tinha me levantado da cama ouvi um carro se aproximar da nossa casa, que ficava afastada da cidade, depois de dois quilômetros de estrada de chão. Senti medo por estar sem você para me proteger e angústia por achar que poderiam ser péssimas notícias. Eram nossos amigos, Antônio e Gabriela, que quando pararam o carro me lembrei que tínhamos marcado de ir com eles para um fim de semana na praia, mas mal lembrava que era sábado e mal sabia que já passava do meio dia. Não me atrevi a atender a porta e fiquei imóvel, na cama, enquanto Misfit miava na porta. A campainha tocou duas vezes e ouvi o barulho do carro indo embora, olhei pela janela e só vi a poeira deixada pra trás. Não me perdoei por ter perdido a chance de contar o que tinha acontecido e neguei ser ajudada por nossos amigos. Aquela solidão era somente minha, mas eu estava sucumbindo à ela de uma forma desenfreada que me deixaria cada vez mais angustiada num ciclo sem fim. Foi um longo mês, de cortinas fechadas, cafés frios, livros de romance que me faziam chorar cada vez mais e uma saudade que se instalou e não me deixou em paz. Um mês que foi embora e levou o seu último sorriso, o último abraço e um último jantar. O meu telefone ficava ao meu lado esperando uma ligação sua, minhas mãos já estavam finas por não comer direito e a aliança do nosso casamento já caía do meu dedo há dias. Quando o telefone tocou, atendi no primeiro segundo, na esperança de ser você. Era minha mãe querendo notícias nossas e pela primeira vez consegui falar sobre o que estava acontecendo, apesar de não conseguir dizer uma palavra sem que com ela venha um mar de choros e lamúrias. "Ele me deixou, mãe. Ele foi embora e me deixou. Ele só levou as roupas, e me deixou aqui, sem ele. Ele me deixou!". Eu não podia mais conviver com essa dor, ela piorava a cada dia e eu estava ficando doente. Doente de amor. A dor no peito que eu sentia era forte demais pra uma mulher pequena como eu. Meus pais moravam em uma cidade vizinha e me pediram para ficar com eles, mas tudo que eu tinha era a certeza que você voltaria. Teimei em abandonar nossa história e jamais viveria em lugar nenhum que não fosse a nossa casa. Os pensamentos mórbidos rondavam minha mente e entraram sem pedir licença. Me vi sentada no chão da cozinha com uma faca na mão e comecei a chorar sem parar, pensando que não poderia viver sem ter você na minha vida. Foi nesse momento em que vi que precisava de ajuda e aceitei ficar na casa dos meus pais. Quem sabe, você voltaria? Quem sabe iria me buscar na casa deles? Tomei um banho longo, coloquei uma bermuda, uma blusa e um tênis. Fiz uma mala com roupas de verão, peguei Misfit no colo e fui até a garagem. Dentro do meu carro estava uma sacola que tinha esquecido há um mês. Eram os remédios pra dormir que você tinha me pedido pra buscar na cidade, quando chegou do consultório por causa das suas crises de insônia. Me lembro de ter te chamado de esquecido, e que antes de eu sair, você me deu um beijo e agradeceu por me ter na sua vida. Fiquei encarando aquelas três caixas de remédio da mesma forma que Misfit encara uma borboleta quando pousa na nossa sacada. Eu tomaria a decisão que não deveria, mas a dor cortante de pensar que você nunca voltaria me fez querer nunca mais voltar também. Voltei com Misfiit, as caixas de remédio e as chaves do carro pra dentro de casa. Deixei nosso querido gato ao lado de um comedouro inteligente, que comprei por causa de nossas constantes viagens com os amigos e por ter que, muitas vezes, deixar Misfit sozinho em casa. Voltei ao carro, ainda encarando os remédios em minhas mãos, mas agora, na companhia de um rum que ganhamos de presente de Antônio. Eu já não chorava, eu estava em pânico. Tudo ao meu redor parecia não existir, a sensação que tive era que o tempo tinha parado naquele momento e eu não me lembrava mais de nada na minha vida. Abri a garagem e saí com o carro. Olhei pelo retrovisor aquela casa que tinha nos abrigado em uma felicidade enorme quando compramos ela, cinco anos depois do nosso casamento. Foi a última vez que a vi. Foi a última vez que vi Misfit, vi nossos móveis, nossas bagunças, aquele quarto de música, a lavanderia cheia de roupas pra lavar. Fui dirigindo até a estação de metrô, onde deixaria meu carro num estacionamento pago e essa seria a última vez que o veria também. Quando estacionei, não pensei em nada, simplesmente tive o impulso de abrir a garrafa de rum, abrir as caixas dos remédios e tomar todos os que podia. O metrô chegaria em dois minutos e eu estava indo praquilo que era meu destino. Depois de tomar todos os remédios com o rum, deixei as chaves de carro com o motorista e entrei no vagão. Em alguns minutos chegaria à estação da cidade dos meus pais e você não estaria lá. Lembro-me de chegar na estação e na hora em que fui sair, caí no chão. Tudo que eu via era o céu escurecendo pelo final da tarde e pelos meus olhos que lentamente iam se fechando. Ouvi sirenes, ouvi a voz de meus pais e vi você. Estava lá, me olhando, com os olhos encharcados de lágrimas, mas eu não podia falar nada. Nada saía. Eu não reagia. Eu queria poder te contar o mês horrível que tive, te dizer o quanto a abstinência desse amor doeu e o quanto eu sentia sua falta. Queria saber os motivos de você ter ido embora, mas nunca pude saber. Agora eu tinha ido embora sem poder consertar os erros e voltar àquele fim de tarde em que olhávamos o sol se pôr. A abstinência tinha acabado, mas com ela a minha vida também. Eu não ouviria mais um bom dia seu, de qualquer forma. Depois de todos esses anos lutando ao seu lado, eu lembro da última coisa que ouvi antes de meus sentidos não existirem mais e que poderia ter falado antes de você me deixar: "Eu quero ir com você!".

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